onde as
pessoas vissem, Quando chegou ao quarto, trancou a porta e
despiu o vestido. A laranja sanguínea deixara uma grande
mancha vermelha na seda.
- Eu a odeio! - gritou. Amarfanhou o vestido numa bola e
atirou-o para a lareira fria, para cima das cinzas do fogo da
noite anterior. Quando viu que a mancha tinha escorrido para
a saia de baixo, não conseguiu resistir e começou a soluçar.
Arrancou furiosamente o resto da roupa, atirou-se na cama e
chorou até dormir.
Era meio-dia quando Septã Mordane bateu à sua porta.
- Sansa. O senhor seu pai a receberá agora. Sansa sentou-se.
- Lady - sussurrou. Por um momento, foi como se o lobo
selvagem estivesse ali no quarto, olhando-a com seus olhos
dourados, tristes e sábios. Compreendeu que tinha sonhado.
Lady estava com ela e corriam juntas, e... e... tentar recordar
era como tentar apanhar chuva com os dedos. O sonho
desvaneceu-se e Lady ficou de novo morta.
- Sansa - a pancada voltou, sonora. - Está ouvindo?
- Sim, Septã - gritou. - Posso, por favor, ter um momento
para me vestir? - tinha os olhos vermelhos de chorar, mas fez
tudo que pôde para se pôr bonita.
Lorde Eddard estava inclinado sobre um enorme livro de
capa de couro, com a perna engessada, rígida, sobre a mesa,
quando Septã Mordane a introduziu no aposento privado,
- Venha cá, Sansa - ele disse, num tom que não era desprovido
de delicadeza, depois de a septã partir para ir buscar a irmã. -
Sente-se ao meu lado - fechou o livro.
Septã Mordane regressou com Arya, que se debatia em suas
mãos. Sansa vestia um belo vestido verde-claro de damasco e
um ar de remorso, mas a irmã ainda trajava as maltrapilhas
roupas de couro e ráfia que usava na refeição matinal.
- Aqui está a outra - anunciou a septã.
- Agradeço-lhe, Septã Mordane. Gostaria de falar com minhas
filhas a sós, com a sua licença - a septá fez uma reverência e
saiu.
- Foi Arya que começou - Sansa disse rapidamente, ansiosa
por ter a primeira palavra. -Chamou-me de mentirosa, atirou-
me uma laranja e estragou meu vestido, o de seda cor de
marfim, aquele que a Rainha Cersei me deu quando fui
prometida ao Príncipe Joffrey. Ela detesta que eu vá casar
com o príncipe. Ela procura estragar tudo, pai, não suporta
que nada seja belo, ou amável, ou esplêndido.
- Basta, Sansa - a voz de Lorde Eddard estava carregada de
impaciência. Arya ergueu os olhos.
- Lamento, pai. Eu estava errada e peço o perdão de minha
querida irmã.
Sansa ficou tão surpresa que por um momento perdeu a fala.
Por fim, recuperou a voz.
- Então, e o meu vestido?
- Talvez... eu possa lavá-lo - disse Arya em tom de dúvida.
- Lavá-lo não resolve nada - disse Sansa. - Nem que o
esfregasse dia e noite. A seda está arruinada.
- Então eu... faço-lhe um novo - Arya tentou. Sansa atirou a
cabeça para trás com desdém.
- Você? Nem seria capaz de coser um vestido bom para limpar
os chiqueiros. O pai suspirou.
- Não as chamei aqui para falar de vestidos. Enviarei ambas
de volta para Winterfell.
Pela segunda vez Sansa ficou surpresa demais para falar.
Sentiu que seus olhos se umedeciam de novo.
- Não pode - Arya reagiu.
- Por favor, pai - Sansa conseguiu dizer por fim. - Não, por
favor. Eddard Stark concedeu às filhas um sorriso cansado,
- Finalmente encontramos alguma coisa em que estão de
acordo.
- Eu não fiz nada de mal - Sansa argumentou. - Não quero
voltar - adorava Porto Real; o aparato da corte, os grandes
senhores e senhoras com seus veludos, sedas e pedras
preciosas, a grande cidade com toda a sua gente. O torneio
constituíra o período mais mágico de toda sua vida, e havia
tantas coisas que ainda não vira, festas das colheitas, bailes
de máscaras e espetáculos de pantomima. Não aguentava a
ideia de perder tudo aquilo. - Mande Arya embora, foi ela
quem começou, pai, juro. Eu serei boa, verá, deixe-me ficar e
prometo ser tão agradável, nobre e cortês como a rainha.
A boca do pai retorceu-se de um modo estranho.
- Sansa, não estou mandando vocês embora por causa das
brigas, embora os deuses bem saibam como estou farto das
suas disputas. Quero que voltem a Winterfell para a sua
segurança, Três dos meus homens foram abatidos como cães a
menos de uma légua de onde estamos, e que fez Robert? Foi à
caça.
Arya mordiscava o lábio daquela sua maneira nojenta.
- Podemos levar Syrio de volta conosco?
- Quem se importa com seu estúpido mestre de dançai -
Sansa disparou. - Pai, acabei de me lembrar, não posso ir
embora, vou me casar com o Príncipe Joffrey - tentou sorrir
com bravura para ele. - Eu o amo, pai, amo mesmo, mesmo,
tanto como a Rainha Naerys amou o Príncipe Aemon, o
Cavaleiro do Dragão, tanto como Jonquil amou Sor Florian.
Quero ser a sua rainha e ter os seus bebês.
- Querida - disse o pai gentilmente -, escute-me. Quando tiver
idade, lhe arranjarei casamento com algum grande senhor que
seja digno de você, alguém que seja corajoso, gentil e forte.
Esta promessa a Joffrey foi um erro terrível. Aquele rapaz
não é nenhum Príncipe Aemon, acredite no que digo.
- É, s im! - Sansa insistiu. - Não quero 